É hoje o dia que devemos reter.
Faz dez anos que vivemos em medo, instituido e imposto.
Do “olho por olho” se ditou lei e triplicou o número de mortos das Twin Towers.
Faz dez anos que pusemos o nosso destino nas mãos de um pistoleiro.
Que este medo (nosso) passou a fazer parte de uma qualquer política de negócios estrangeiros. Este medo que é certamente útil a quem o elaborou.
Já não há Bin Laden, já não há Sadam. Mas o medo é alimentado, ano a ano, dia a dia em cada aeroporto, em cada oportunidade de o criar.
Faz menos de dez anos que estive prestes a ficar retido numa sala de interrogatório de Heathrow. Apenas e só porque era ligeiramente mais moreno do que as três pessoas que me acompanhavam. Se estivesse só, era certo que ia passar mais algumas horas no aeroporto.
Nos aeroportos de todo o mundo, estão neste momento retidas milhares de pessoas que são “ligeiramente mais morenas”. Mesmo que não sejam árabes, mesmo que nada devam à religião.
E passámos a ver tudo isto como normal, aceitável e necessário em nome do medo.
Recentemente, este nosso governo autorizou a divulgação “sem contrapartidas” dos dados de todos os cidadãos portugueses à CIA. Útil. Imagine-se isto a nível global. Estamos nas mãos dos pistoleiros, de sorriso nos lábios.
Julgo que é óbvio que já passámos a fase da vingança (o triplo dos mortos devem chegar, julgo eu, não sei como está a bolsa de valores da vida humana por Wall Street). Para a maioria dos americanos, isto era apenas vingança. Vingada que está a vingança, muitos começam a já não perceber por que continua a guerra.
Diz-se que é preciso eliminar a ideia, a raiz religiosa e ideológica que permanece pelo Afeganistão e que é ameaça permanente à “segurança de todos nós”. Eu chamo-lhe dar um motivo a esses fundamentalistas (que o são, não duvido) para continuarem a sua própria guerra santa.
No dia em que os americanos, enquanto povo, olharem para o seu próprio discurso intolerante e fundamentalista (dizer freedom de duas em duas frases e citar Deus como se estivessem a chamar o irmão mais velho para andar à pancada não conta para tornar um discurso automaticamente tolerante), talvez tenham uma epifania. Até lá, no mesmo sítio ficarão.
A história das civilizações está cansada de nos avisar que não é pela guerra, pela eliminação, pela conquista que o humanismo triufa. Mas nós insistimos e enquanto houver um pistoleiro que seja, é assim que será.
Enquanto houver este tipo de fundamentalismo na ideia dos governantes americanos (propagado a nível mundial por governos subservientes), outros fundamentalismos permanecerão e serão alimentados todos os dias. A semente colocada na mente de quem pouco conhece para além da sua própria aldeia, brevemente marcado como “terrorista”.
Ocorreu-me ontem a memória da transmissão televisiva em directo do bombardeamento de Bagdad, uma das cidades mais importantes das civilizações antigas, riquíssima em tantos aspectos. Digno de luto, mas este luto não é conveniente lembrar.
Não sei como a história nos julgará, mas desconfio. Afinal, não estamos assim tão longe de outras guerras feitas de intolerância. Será tudo convenientemente metido no mesmo saco, a intolerância não tem delimitação geográfica nem cor de pele.
As feridas não se saram com soldados, saram-se com liberdade. Não se saram com ficheiros secretos, com opressão, saram-se com instrução, acesso ao conhecimento, acesso ao mundo, afinal.
É esta a guerra justa, a guerra que nos deveria mover a todos, qualquer que seja a bandeira que erguemos, a cor que defendemos, o lado em que nos posicionamos.
Esta é uma guerra que não se faz de armas, nem de roupa camuflada.
Mas desconfio que amanhã as mortes continuarão, que a máquina de guerra continuará bem viva, de fôlego renovado e que os telejornais continuarão a dar conta da “evolução da situação”.
Não se deixem enganar, é que é na era do 12 de setembro que vivemos.